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            Sejamos sinceros: não aconteceu uma revolução mundial e, de repente, todas as mulheres passaram a sonhar com uma silhueta cheia de quilos a mais. Em compensação, o campo das bem fornidas está pipocando de novidades positivas. Nos Estados Unidos, uma adolescente rechonchuda, mas muito descolada, tem levado um sopro de alívio para as sofridas vítimas da ditadura da magreza: Kelly Osbourne, 18 anos, 1,55 metro, 55 quilos e muita atitude. Filha do roqueiro Ozzy e revelação do reality show exibido pela MTV que acompanha o cotidiano de sua família, Kelly não malha e não faz regime, adora roupas e maquiagem e explora ao limite seu jeito sexy-exagerado de ser. Chama tanto a atenção que, num intervalo de poucos meses, apareceu na lista das mulheres mais bem-vestidas da revista People e na das mais malvestidas composta todo ano pelo conservador estilista Mr. Blackwell. Kelly tornou-se um dos modelos de comportamento mais positivos para as meninas acima do peso em um país onde 68% das mulheres vestem o equivalente ao manequim 44 – no mínimo. No Brasil, onde 40% das pessoas estão acima do peso ideal, o exemplo do momento de cheinhas cheias de charme está no grupo Rouge, um sucesso instantâneo que já vendeu 1 milhão de discos desde agosto. Igualmente vindas de um reality show, duas das cinco integrantes do Rouge, Karin e Fantine, fogem do padrão magrinho – o que é uma novidade numa banda brasileira moldada para agradar aos adolescentes. "Queríamos cantoras que fossem a cara das brasileiras, normais", diz Alexandre Schiavo, vice-presidente de marketing da Sony.
            A loirinha Fantine, 24 anos e 1,65 metro, sua o top há quase um ano dançando a Ragatanga pelo país afora, mas continua com 65 quilos. Nem por isso se esconde em modelitos folgados – seu estilo é moderninho, como o de qualquer cantora jovem. "Para aparecer no vídeo, só evito roupas que deixem a barriga de fora. Gosto de decotes, que valorizam meu colo", diz. Sua colega Karin, 24 anos, 1,63 metro e 63 quilos, está sempre tentando emagrecer, mas geralmente perde a paciência antes de conseguir. "Eu não faço o gênero modelo, tenho estrutura grande", conforma-se. "Gosto de usar vestidos, mas, quando estou mais gordinha, prefiro mesmo a combinação calça e blusa." Outra cheinha acostumada a explorar o melhor de sua silhueta é Preta Gil, 28 anos, filha do ministro Gilberto Gil. Preta, 1,60 metro, 77 quilos, que assim dimensionada acaba de assinar contratos para lançar um disco e participar da próxima novela das 6, Agora É que São Elas, exibe uma auto-estima equivalente ao tamanho do seu closet: oito portas de armário ("Metade das roupas não cabe em mim"), mais de 120 pares de sapato e pelo menos cinqüenta bolsas. Depois de muito sofrer, ela diz que aprendeu. "O importante para uma roupa cair bem é que a gordinha assuma seu manequim", diz Preta com sua vasta experiência no assunto – de tão louca por grifes, ela ganhou dos amigos o apelido de "Pretinha de Beverly Hills".
            Encontrar modelos bacanas em tamanhos grandes ainda é um exercício de paciência para as fofinhas antenadas, mas a situação começa a melhorar. "Roupas maiores exigem mais pesquisa no corte ou ficam parecendo sacos de batata", diz Andre Apasse, dono de uma loja de roupas modernas em manequins avantajados em São Paulo. Nas lojas da grife italiana Emporio Armani e da americana Tommy Hilfiger encontram-se atualmente modelos que chegam aos números 46 e 48, respectivamente. Até maio, a italiana Marina Rinaldi, a irmã de medidas fartas do grupo MaxMara, inaugura sua primeira loja brasileira, num endereço chique de São Paulo. Nos Estados Unidos, a mais famosa badalação no assunto acontece durante a semana de moda de Nova York, onde a marca Lane Bryant, voltada para cheinhas descoladas, faz um desfile só com modelos consideradas acima do peso – Kelly Osbourne e Mia Tyler, filha do também roqueiro Steven Tyler e irmã da magérrima Liv, estiveram na passarela no mês passado.
            Para quem tem ousadia e senso de estilo, como Kelly Osbourne ou Preta Gil, praticamente tudo é permitido. Para quem ainda está ensaiando, conselhos consagrados continuam valendo. "O top que valoriza o colo fica bem com uma saia evasê, que disfarça o quadril grande. O melhor comprimento é abaixo do joelho", diz Emília Duncan, figurinista da Rede Globo. Os tecidos mais adequados são os moles, como sedas e georgettes, que dão idéia de leveza. Nada de materiais que armem, como o tafetá e o tule. No verão, o desafio é saber dosar o que fica à mostra. Decotes nas costas, por exemplo, não são recomendados pelos especialistas. Qualquer pedaço do abdômen de fora só quando a linha da cintura ainda é discernível. Nem pensar em comprar modelos menores que seu manequim na esperança de "comprimir" o que está sobrando. "Evitar roupa muito apertada é o primeiro passo para estar bem-vestida", ensina a consultora de moda Fabiana Kherlakian. E alerta: "O que fica bom numa cheinha alta pode ficar um horror na baixinha. Antes de tudo, o importante é conhecer o próprio corpo".

 

            Fonte: Veja