Ciclo mórbido

 

Pássaros cantavam e pulavam,
para cá e para lá.
E da fauna e flora se alimentavam. 

O Sol os acordava
e a lua despontava,
com os sapos coaxando
e o vento soprando. 

Da terra que crescia a relva,
nasceram prédios,
casas e estradas.  

Os pássaros,
não sabiam mais cantar
e as árvores sobreviventes,
demonstravam angústia,
em seu tronco, copa, flores
e frutos subdesenvolvidos. 

De restígios alimentícios,
os poucos pássaros se alimentavam
e o Sol não mais os acordava.
E quem os despertava,
eram os tics-tacs e as buzinas,
quando não eram gritos.  

A lua era empurrada pelas estrelas,
para fazer à noite.
Não havia sapos
e o seu lugar os insetos dominaram. 

Da terra cansada,
fadigada, cinzenta;
nem prédios nasciam mais.  

Nisso um singelo e pobre,
casal de passarinhos,
nascido e crescido na cidade,
resolveram voar mais um pouquinho. 

Sobrevoaram concretos,
até que o morto,
deu lugar a vida
em um chão verdejante.  

Suspiraram pelo o que viram.
Diante de seus pequeninos olhos,
viram um céu infinito,
uma flora e fauna,
nunca conhecida.  

Conheceram o sapo e seus coaxos.
Alimentaram-se da relva
e não de latas de lixo.  

Brincaram com os peixes do rio,
sorriram com o Sol
e bailaram sobre a luz lua. 

Voaram, voaram,voaram.
Aprenderam a cantar e a pular. 

Um único risco certeiro,
emudeceu a alegria dos dois passarinhos.
Que frios foram de encontro ao chão. 

Daquela flora tão bela,
dentre as suas entranhas
nasceram prédios...

 

Letícia Luccheze.